No Brasil, a arte rupestre se manifesta de diversas formas: esculpidas, pintadas (pictógrafos) e gravadas (petróglifos) em rochas e cavernas por todo o território nacional. Diante o desafio de compreendê-las, os estudiosos se concentram em classificar as obras com base em temas, estilos e técnicas, (tradições) agrupando-as por semelhanças e diferenças.
A arte rupestre brasileira se manifesta em três dimensões principais:
Material: relacionada às técnicas e pigmentos utilizados (pintura, gravura, escultura, etc.);
Temática: ligada aos motivos escolhidos (animais, figuras humanas, símbolos geométricos);
Gráfica: referente ao modo de organização visual, que dá origem às chamadas tradições rupestres.
Gravuras
As gravuras rupestre, técnica que remove material da rocha para criar desenhos, era praticada por artistas pré-históricos com ferramentas para raspar, cortar ou esculpir. Variações incluem raspagem superficial, gravura fina e profunda, picoteado, e a gravura pintada, que aplica pigmento sobre a gravura. As tradições meridional, geométrica e amazônica se destacam no uso dessas técnicas.
A tradição meridional
Ocorre no sul do Brasil e em países de fronteira, caracteriza-se por gravuras de rastros de animais e humanos, encontradas principalmente em abrigos rochosos da Serra Gaúcha. Essas representações, predominantemente de pegadas (pisadas) tridáctilas (de aves).
Tradição geométrica
O estilo geométrico, atravessa o planalto de sul até o Nordeste, abrange parte Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás e Mato Grosso, No Norte (setentrional), gravuras em leitos de rios representam animais e humanos. No sul (meridional), gravuras retocadas com pigmentos incluem figuras geométricas e algumas com incisões, chamadas de 'vulvas' por arqueólogos.
Pedra do Ingá
Pinturas
Os pigmentos utilizados na pintura rupestre eram geralmente obtidos a partir de recursos naturais, como: Óxido de ferro (para cores vermelhas e amarelas), carvão ou óxido de manganês (para a cor preta), caulim (para a cor branca). As pituras foram uma das dimesões materiais mais usadas na arte rupestre brasileira, presente em quase todas as tradições.
Pinturas da tradição São Francisco do estilo Caboclo registradas no interior da gruta do Caboclo.
A tradição São Francisco
Distribuída ao longo do Rio São Francisco, destaca-se por figuras geométricas complexas policromáticas e representações de armas, com predominância de linhas retas, círculos e quadrados. É encontrada principalmente no Vale do Rio São Francisco, abrangendo estados como Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Sergipe. Essa tradição apresenta variações regionais e evoluiu ao longo de milhares de anos.
Tradição Nordeste e Agreste
A arte rupestre da Tradição Nordeste, encontrada em estados como Piauí, Pernambuco e Bahia. As pinturas e gravuras, predominantemente monocromáticas, representam homens, animais como emas e cervídeos, e pequenos quadrúpedes, com figuras antropomórficas abundantes. Os temas abrangem desde cenas de relações sexuais em diferentes posições até práticas violentas de execuções.
Pintura rupestre da tradição Nordeste. Toca do Boqueirão da Pedra Furada (PI). Foto: Itatibamario sob licença: CC BY-SA 4.0 via: https://commons.wikimedia.org
Pintura rupestre tradição Agreste, serra da capivara PI, foto de Diego Rego Monteiro sob licença creativecommons.org/licenses/by/4.0/ Disponível em: https://commons.wikimedia.org
A arte rupestre da tradição Agreste, típica do sertão nordestino, se destaca por suas figuras antropomórficas e zoomórficas, geralmente representadas de forma extremamente simples.
Superfície da rocha, Gruta do Pilão, Monte Alegre PA. .
Tradição Amazônica
Na região amazônica e nas Guianas, são comuns desenhos de rostos humanos em rochas (caretas), especialmente em locais próximos a rios. Esses desenhos fazem parte de uma tradição artística muito antiga e variada, com diferentes estilos em cada região.
As pinturas de Monte Alegre mostram pessoas de muitas formas diferentes, desde muito realistas até bem simples. Os artistas usavam as características naturais das rochas para criar rostos, por exemplo, usando protuberâncias para representar narizes.
Escultura:
Escultura Amazônica
A escultura também teve papel significativo nas expressões artísticas pré-históricas brasileiras. Entre os exemplos mais notáveis estão os muirakitãs, pequenos amuletos esculpidos em pedra verde ou azulada, geralmente em formato de rã, embora também existam exemplares em forma de peixes e tartarugas. Produzidos há cerca de 2.000 anos, na região amazônica — especialmente próxima ao Lago Cajari —, esses objetos eram usados como pingentes em colares e estão associados a contextos cerimoniais e de prestígio social. Para muitas culturas indígenas, o muirakitã simbolizava fertilidade, proteção espiritual e ligação com as forças da natureza .
Voltando ao sul do Brasil, encontramos outra importante manifestação escultórica nos sambaquis — grandes montes de conchas e sedimentos formados entre 5.000 e 2.000 anos atrás.
Nesses sítios arqueológicos, foram descobertas pequenas esculturas de pedra, geralmente associadas a sepultamentos, o que indica uma função ritualística e simbólica.
As representações de animais, como o albatroz e o tatu, sugerem crenças sobre a vida após a morte e o respeito às forças espirituais ligadas à natureza.
Essas esculturas revelam que, desde tempos remotos, o ser humano que habitava o território brasileiro transformava matéria em significado, atribuindo aos objetos uma dimensão estética, espiritual e cultural que ultrapassava a simples função utilitária.