D. João VI, 1820, por Simplício de Sá, Domínio público, via Wikimedia Commons
O início do século XIX no Brasil foi profundamente transformado por eventos políticos europeus. Em janeiro de 1808, fugindo dos conflitos armados entre a França liderada por Napoleão Bonaparte e a Inglaterra, o Príncipe Regente D. João VI e uma comitiva composta por cerca de 15 mil pessoas desembarcaram inicialmente na Bahia, transferindo-se em março do mesmo ano para a cidade do Rio de Janeiro. Esta migração da corte promoveu uma ampla reestruturação política, econômica e cultural na colônia. Com a abertura dos portos, o monopólio do pacto colonial com Portugal foi encerrado, inserindo o Brasil no circuito de expansão do capitalismo europeu e abrindo-o a influências diretas de outras nações.
Para adequar o Rio de Janeiro à nova condição de sede da monarquia e capital do Império Português, o soberano iniciou reformas estruturais e fundou instituições fundamentais, tais como as primeiras fábricas, o Banco do Brasil, a Biblioteca Real, o Museu Real e a Imprensa Régia. Havia, na política da época, a intenção de consolidar um Império Português Ultramarino definitivo no Brasil. Embora essa ideia polêmica tenha sido abandonada, ela motivou pesados investimentos para dotar a colônia de um arcabouço institucional compatível com a realeza.
CARACTERÍSTICAS GERAIS
Oito anos após a chegada da corte, em 1816, a tendência "europeizante" de imitação cultural se consolidou definitivamente com o desembarque da Missão Artística Francesa, um grupo organizado de profissionais intelectuais chefiado por Joachim Lebreton. Em agosto daquele ano, a comitiva instituiu a Escola Real das Ciências, Artes e Ofícios que, após sucessivas mudanças de nomenclatura, foi oficializada em 1826 como a Imperial Academia e Escola de Belas-Artes.
As características estéticas e filosóficas que passaram a nortear o ensino acadêmico contrapunham-se diretamente às tradições coloniais anteriores.
Entre as principais características do estilo destacam-se:
Substituição Estética: Abandono completo dos preceitos ornamentais e emotivos do Barroco e do Rococó.
Adoção do Neoclassicismo: Alinhamento com a clareza, a ordem e o rigor técnico da tradição greco-romana, convertendo os ideais clássicos em normas pedagógicas obrigatórias.
Mudança Temática: Deslocamento do foco quase exclusivamente sacro para a abordagem de paisagens tropicais, retratos da nobreza, composições mitológicas e, primordialmente, a pintura histórica documental.
Função Simbólica: A arte passou a carregar uma função cívica e política, destinada a legitimar visualmente o poder da monarquia, registrar a transição social do território e fornece a infraestrutura cultural para a nova nação que se organizava.
ARQUITETURA
A arquitetura capitaneou a renovação estilística do ambiente urbano nacional, rompendo de forma definitiva com as heranças estruturais e ornamentais do Barroco colonial.
Auguste-Henri-Victor Grandjean de Montigny (1772-1850): O principal nome da arquitetura da Missão Francesa. Foi o encarregado de projetar o próprio edifício sede da Academia de Belas-Artes, concluído e inaugurado para as aulas em novembro de 1826. Seu trabalho estabeleceu a gramática do Neoclassicismo arquitetônico na capital, pautada pela simetria, uso de colunas clássicas e frontões.
Escola Nacional de Belas Artes, integra o acervo do Instituto Moreira Salles. imagem Marc Ferrez publicada por EderPorto via Wikimedia Commons
José Maria Jacinto Rebelo: Discípulo direto de Montigny, Rebelo assinou o projeto arquitetônico do Solar dos Marqueses de Itamarati. A edificação, construída sob os moldes neoclássicos vigentes na época, desempenhou mais tarde o papel de sede do Ministério das Relações Exteriores — rebatizada como Palácio do Itamarati — durante o período em que o Rio de Janeiro permaneceu como capital do país. Outro grande referencial arquitetônico neoclássico mencionado como característico desse período de renovação é a Casa da Moeda.
Palácio Itamaraty 1906, Public domain, integra o acervo do Instituto Moreira. Via imagem via Wikimedia Commons
PINTURA
A pintura acadêmica neoclássica impôs o rigor do desenho, o equilíbrio compositivo e a hierarquia dos gêneros, destacando-se na representação histórica e de paisagens.
Entrada da baía e da cidade do Rio a partir do terraço do convento de Santo Antônio em 1816, 1816 Nicolas Antoine Taunay óleo sobre tela 45,00 cm x 56,50 cm. Acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Public domain, via Wikimedia Commons
Jean-Baptiste Debret (1768-1848): (O nome mais recorrente da Missão Artística Francesa em exames). Sua obra, grosso modo, divide-se entre as produções oficiais — que lhe renderam prêmios na Europa como pintor encomendado por Napoleão — e as obras “não oficiais”, que se destacam pelo precioso caráter documental do cotidiano brasileiro.
Saudação de Napoleão a um comboio infeliz debret 1805. Foi encomendada inicialmente pelos questores do corpo legislativo francês para a sala de conferências do palácio oficial da instituição. Debret executou a pintura paralelamente a um concurso público da época. O governo imperial francês adquiriu a tela diretamente do artista em 28 de agosto de 1806 pelo valor de 6.000 francos, sendo destinada primeiramente ao Musée Napoléon (Louvre). Fonte da imagem: via publicação do Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná Departamento de História História do Brasil II (HH061) Professor responsável: Luiz Geraldo Silva.
No Brasil sua obra mais popular em nossos dias é a coleção em três volumes Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil: o primeiro volume (1834) traz 36 ilustrações que focam na natureza e nos costumes indígenas; o segundo (1835) foca na sociedade urbana carioca e contém 48 ilustrações; o terceiro (1839), que reúne 66 ilustrações, dedica-se aos aspectos políticos, institucionais e à família real.
Imagem 01: Hiiema Mongoyo : Homem Camacã Mongoyo 1834; Imagem 02: O jantar. Passa tempo depois do jantar 1835. Imagem 03: Desembargadores chegam uniformizados no Palácio da Justiça. Estátua de São Jorge e seu cortejo: precedendo a procissão do Corpus Christi 1839. Fonte das imagens Biblioteca Brasiliana
Coroação de D. Pedro II, 1845 Manuel de Araújo Porto-Alegre óleo sobre tela. Public domain. Imagem por Ricardo André Frantz, usuário Tetraktys , via Wikimedia Commons
Manuel de Araújo Porto Alegre: Um dos primeiros alunos da Academia, matriculado em 1827 nas aulas de pintura e arquitetura. Natural do Rio Grande do Sul, atuou como paisagista, caricaturista, desenhista, crítico de arte, escritor e teatrólogo. Anos mais tarde, assumiu o cargo de diretor da instituição, tornando-se um grande incentivador de suas atividades.
Artistas que posteriormente integraram a Imperial Academia de Belas Artes consolidaram o ensino académico no Brasil, expandindo o legado de 1816:
Augusto Müller (1815-?): Discípulo de Araújo Porto Alegre, destacou-se com rigor técnico em pintura histórica, paisagens e retratos.
Agostinho José da Mota (1821-1878): Ingressou em 1837. Notabilizou-se em naturezas-mortas e paisagens, sendo o pioneiro a ganhar o prémio de viagem à França (1850).
Pedro Américo (1843-1905): Teve os estudos na Europa custeados por D. Pedro II. Tornou-se professor da instituição e o maior expoente da pintura histórica nacional (A Batalha de Avaí).
Müller e Agostinho da Mota pertenceram à primeira geração de alunos que absorveu a herança da Missão Francesa, enquanto Pedro Américo liderou a geração seguinte, elevando o nacionalismo académico ao seu ápice.
Fora da Missão Francesa, outros pintores europeus vieram ao Brasil atraídos pela luz tropical e pela procura da burguesia por retratos. Destacam-se os retratistas franceses Claude Joseph Barandier (ativo desde 1840) e Auguste Petit (retratista da corte desde 1864).
Outros dois nomes importantes foram:
Thomas Ender (1793-1875): Austríaco que chegou em 1817. Produziu 800 desenhos e aquarelas sobre as paisagens e o quotidiano popular em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Johann-Moritz Rugendas (1802-1868): Alemão que viajou pelo Brasil (1821-1825). Publicou o livro Viagem Pitoresca Através do Brasil com 100 ilustrações. Destacou-se no desenho linear para o registo etnográfico de costumes e pintou retratos a óleo de D. Pedro II e da Princesa Dona Januária.
CONCLUSÃO
A adoção do Neoclassicismo pela Missão Francesa foi uma estratégia do Estado para romper com o passado luso-barroco e dar à corte uma imagem de modernidade europeia, criando a iconografia de um império ordenado e centralizado (CHIARELLI, 1995).
A criação da Imprensa Régia e a introdução da litografia permitiram multiplicar e distribuir internacionalmente as crônicas visuais sobre o cotidiano brasileiro feitas por Debret e Rugendas, transformando a imagem em um poderoso documento histórico e etnográfico (KOSSOY, 2002).
A Missão Artística Francesa foi o motor de modernização cultural do Brasil no século XIX, responsável por substituir a tradição colonial sacra do Barroco pelo ensino oficializado e técnico do Neoclassicismo. Através da fundação da Academia e das crônicas visuais de artistas como Debret, o movimento gerou um acervo documental inédito sobre a sociedade, as paisagens e os costumes da época. Esse legado consolidou-se como uma herança visual fundamental, amplamente rica para analisar a construção da identidade nacional e o uso político da arte no Império.
Referência:
CHIARELLI, Tadeu. Arte Internacional Brasileira. São Paulo: Lemos Editorial, 1995).
PROENÇA, Graça. História da Arte. 16. ed. 8. imp. São Paulo: Ática, 2002. 280 p. ISBN 8508032447
KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002).