Caspar David (1774 - 1840): O Viajante sobre o Mar de Névoa. Cerca de 1818: 94,8 x 74,8 cm: Óleo sobre tela: Hamburger Kunsthalle, Imagem: SHK Hamburger Kunsthalle - Elke Walford – ARTOTHEK, Disponibilizada por Oursana via Wikimedia Commons
O século XIX iniciou-se sob a atmosfera de intensas transformações sociais, políticas e econômicas. Os reflexos da Revolução Industrial e os desdobramentos da Revolução Francesa, ambos ocorridos no final do século XVIII, redesenharam as estruturas do continente europeu. No plano artístico, esse ambiente instável e dinâmico propiciou um cenário complexo, fragmentado em diferentes visões estéticas e tendências conceituais que buscavam responder às novas demandas daquela sociedade.
Nesse panorama de profundas rupturas, emergiu o Romantismo — um movimento inicialmente literário e filosófico que se desenvolveu na Europa entre 1800 e 1850 antes de se expandir de forma definitiva para as artes plásticas. O Romantismo consolidou-se como a primeira grande reação ao Neoclassicismo e ao seu racionalismo iluminista, propondo em contrapartida a supremacia do sentimento sobre o pensamento lógico. A criação artística passou, então, a se guiar primordialmente pela exaltação das paixões, da subjetividade e da imaginação criadora. As características estéticas e filosóficas que passaram a nortear o ensino acadêmico contrapunham-se diretamente às tradições coloniais anteriores.
CARACTERÍSTICAS GERAIS
O Romantismo rompeu com os princípios do Neoclassicismo ao substituir a predominância da razão pela valorização dos sentimentos. A criação artística passou a expressar emoções intensas, experiências individuais e a imaginação do artista.
Destaque para:
Valorização da emoção e da imaginação como fundamentos da criação artística;
Subjetivismo, permitindo ao artista expressar livremente seu mundo interior;
Sentimentalismo, enfatizando emoções profundas, muitas vezes associadas à religiosidade e à melancolia;
Nacionalismo, que substituiu os temas da mitologia clássica por assuntos ligados à história nacional, ao heroísmo, ao folclore, ao indígena, à fauna e à construção da identidade dos povos;
Culto da natureza, agora vista não apenas como cenário, mas como elemento capaz de refletir os sentimentos humanos;
Idealização, tanto da figura feminina quanto dos heróis, frequentemente representados acima das limitações comuns da experiência humana.
A Liberdade Guiando o Povo, Eugène Delacroix Comemorando a Revolução de Julho de 1830, que depôs o rei Carlos X da França. Imagem sob licença CC BY-SA 2.0 por Dennis Jarvis via Flicker
Eugene Delacroix (1799-1863): Caracterizou-se por agitações urbanas e pelo uso expressivo da cor. Após visitar o Marrocos em missão diplomática, pintou A Agitação de Tânger, que prenuncia o Impressionismo devido ao tratamento dado ao céu límpido e à luz intensa refletida sobre as casas. A paixão pelas multidões culminou em sua obra mais conhecida, A Liberdade Guiando o Povo, que celebra a Revolução de 1830 na França por meio de um jogo dramático de luz, sombras e contrastes cromáticos.
O Romantismo também modificou os temas da arte. Em vez de priorizar acontecimentos da Antiguidade greco-romana, os artistas passaram a representar fatos históricos contemporâneos, conflitos políticos, acontecimentos nacionais e paisagens carregadas de emoção. A natureza deixou de ocupar um papel secundário para tornar-se protagonista das obras, apresentando ora serenidade, ora violência, sempre em sintonia com o estado emocional representado.
ARQUITETURA
A arquitetura romântica caracterizou-se por uma linguagem marcada pelo sentimento de nostalgia e por reduzida originalidade formal. Em vez de criar modelos inteiramente novos, retomou estilos arquitetônicos do passado, produzindo edifícios de caráter eclético.
O Palácio de Westminster, também conhecido como Parlamento Inglês. Imagem disponibilizada por Aldo Ardetti, sob licença, CC BY-SA 3.0 , via Wikimedia Commons
O Parlamento de Londres (Iniciado em 1836): Projetado por Charles Barry e A. Welby Pugin. Após um incêndio devorar o parlamento em 1834, o sentimento nacionalista das guerras napoleônicas (que enxergava no gótico a expressão genuína do gênio nacional da Inglaterra, França e Alemanha) exigiu que a reconstrução do edifício fosse executada em estilo neogótico
Alguns conceitos importantes:
Revivalismo: Reprodução de técnicas e cânones estéticos de correntes anteriores.
Ecletismo: Combinação de influências de várias épocas e estilos em um mesmo edifício.
Historicismo: Valorização simbólica de estilos do passado (como o românico e o gótico medievais, cujas soluções técnicas foram reconhecidas como tão racionais quanto as clássicas).
Exotismo: Gosto pelo que é diferente ou estrangeiro à cultura ocidental (estilos árabes, bizantinos, chineses, japoneses e indianos) alimentado pela excentricidade e pelo poder de consumo de viagens e arte da alta burguesia.
Pavilhão Real – Brighton – 1752-1825 – John Nash. Imagem disponibilizada por Flamenco sob licença, CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons
PINTURA
A pintura romântica rompeu com a estética neoclássica, embora utilizasse parte de seus conhecimentos técnicos. Em vez de priorizar o equilíbrio e a racionalidade, aproximou-se das soluções visuais do Barroco, recuperando o dinamismo, o realismo e a expressividade. Pintores como Francisco Goya, Eugène Delacroix, Joseph Mallord William Turner, John Constable e Théodore Géricault passaram a representar emoções intensas, acontecimentos contemporâneos e paisagens carregadas de significado.
Théodor Géricault (1791–1824). A Jangada da Medusa 1819. Imagem em Public domain disponibilizada por Sailko via Wikimedia Commons
Théodore Géricault (1791-1824): Marco fundador do Romantismo pictórico com a tela A balsa do Medusa (medindo aproximadamente 40,64 x 59,69 cm). A obra narra o naufrágio verídico de um navio governamental francês que transportava colonos para o Senegal, onde a tripulação abandonou 149 passageiros em uma balsa improvisada sem comida ou água, sobrevivendo apenas 15 deles. Géricault agiu como um repórter ao pesquisar a tragédia: entrevistou sobreviventes, estudou corpos em decomposição e esboçou lunáticos em asilos. A contorção dos corpos desnudos em luta pela vida, somada à denúncia política implícita, provocou enorme impacto na época, marcando a transição da arte francesa em direção à emoção direta em detrimento do intelecto .
Quanto aos temas, os acontecimentos da história nacional e da realidade contemporânea despertaram maior interesse do que a mitologia greco-romana. Ao mesmo tempo, a natureza deixou de funcionar apenas como cenário para tornar-se protagonista das obras, revelando estados de calma ou agitação equivalentes às emoções humanas.
Francisco Goya, “O 3 de maio” Public domain, via Wikimedia Commons
Francisco de Goya (1746-1828): Transitou por gêneros diversos, retratando desde a corte (A Família de Carlos IV) e o povo (A Leiteira de Bordéus), até monstros metafóricos (Saturno Devorando um de seus Filhos) e os impactos destrutivos dos conflitos bélicos (O Colosso). Sua obra histórica definitiva, Os Fuzilamentos de 3 de Maio, retrata a execução de civis espanhóis que resistiam à ocupação francesa comandada por Napoleão I. A composição em diagonal e a iluminação focada na figura de camisa branca com braços erguidos simbolizam a morte iminente. O contraste entre os soldados sem rosto (representação da violência anônima) e as feições detalhadas das vítimas universalizou o sofrimento humano frente à opressão militar.
Características gerais da pintura romântica:
Recuperação do dinamismo e do realismo presentes na arte barroca;
Composições diagonais que sugerem movimento e instabilidade;
Valorização da cor (mais importante que a linha e a forma);
Contrastes de claro e escuro para produzir dramaticidade;
Representação de acontecimentos históricos contemporâneos;
Natureza transformada em tema principal da pintura;
Ênfase na emoção em lugar da razão.
ROMANTISMO NO BRASIL
No território brasileiro, o Romantismo fincou raízes profundas no movimento de independência de 1822, reverberando com vigor pela produção artística nacional de modo geral e assumindo contornos singulares nas diferentes linguagens.
Identificar a tendência romântica na pintura histórica e acadêmica nacional exige uma análise apurada dessa produção específica e diversificada, muitas vezes rotulada de forma exclusiva sob os moldes neoclássicos. Contudo, assim como Neoclassicismo e Romantismo se combinaram em diferentes mestres europeus, o mesmo processo dialético ocorreu no Brasil, mesclando o rigor técnico das academias à paixão passional romântica.
Dois Grandes Artistas de Destaque:
Victor Meirelles. Batalha de Riachuelo (1868-1872) . Imagem disponibilizada por Tetraktys, Public domain, via Wikimedia Commons
Victor Meirelles (1832-1903): Célebre pintor acadêmico cujas composições demonstram nítidas afinidades técnicas e conceituais com Géricault (“A batalha de Riachuelo” teve forte inspiração da “Jangada da Medusa”). Sua obra mais emblemática, A Primeira Missa no Brasil, celebra o contato inicial entre os portugueses e os indígenas de forma idealizada, pacífica e solene.
Pedro Américo, o grito do Ipiranga (ou interpendência ou morte). Imagem em Public domain disponibilizada por Ederporto via: Wikimedia Commons
Pedro Américo (1843-1905): Famoso internacionalmente pela monumental tela Independência ou Morte (popularmente conhecida como O Grito do Ipiranga). A pintura operou uma completa idealização do momento da emancipação política brasileira, convertendo o fato histórico em um acontecimento épico e heroico centrado na figura mítica do monarca.
O Último Tamoio, 1883 Rodolfo Amoedo óleo sobre tela, c.i.e. 180,30 cm x 261,30 cm Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) ). Imagem em Public domain disponibilizada por Lecen via Wikimedia Commons
Os Temas Centrais do Romantismo Brasileiro:
História do Brasil: Grandes telas dedicadas a retratar fatos passados da trajetória nacional, idealizadas com o propósito deliberado de criar e consolidar um forte sentimento de orgulho pátrio.
Indianismo: A eleição do indígena como o autêntico e legítimo herói nacional, personificando as virtudes originárias da nova nação.
Paisagens Naturais: Rios majestosos, florestas densas e montanhas tropicais pintados com grande destaque, convertendo a exuberância da flora e da fauna em símbolos da identidade territorial.
Os Processos de Idealização nas Obras Nacionais:
O Indígena: Retratado de forma mítica como um ser totalmente puro, forte, corajoso e harmonicamente integrado à natureza selvagem. Essa construção simbólica funcionava como uma cortina ideológica que escondia a dura e violenta realidade enfrentada pelas populações nativas na época.
A Pátria: O Brasil era projetado visualmente como um lugar paradisíaco, grandioso, perfeito e transbordante em riquezas, dotado de um destino manifesto promissor.
O Passado: A história nacional era recontada por meio de uma chave heroica e épica, com o objetivo político de unir e centralizar o povo em torno da imagem de liderança do Imperador.
CONCLUSÃO
O Romantismo nas artes visuais atuou como um importante palco para a expressão de valores universais de emancipação civil e repúdio à opressão militar. Em análises sobre a arte de resistência do século XIX, aponta-se que obras históricas românticas transcenderam o registro factual e assumiram um caráter panfletário em defesa dos direitos fundamentais. Conforme descreve ARGAN (2004), na pintura Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808, Francisco de Goya operou uma profunda revolução estética ao retirar o heroísmo tradicional do campo de batalha e focar na brutalidade da execução de civis anônimos. Ao destituir as forças repressivas de fisionomia e iluminar de maneira quase sacra o cidadão rebelde prestes a morrer, o pintor espanhol construiu uma denúncia universal contra o arbítrio do poder e o massacre de populações civis, antecipando debates sobre as atrocidades cometidas em nome do Estado.
Na perspectiva do ENEM, a abordagem do Romantismo também costumam focar na análise comparativa de imagens, exigindo que o estudante identifique a oposição formal e conceitual entre o equilíbrio estático do Neoclassicismo e a dramaticidade emotiva das obras românticas.
Referências
ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna: do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004).
BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985).
PROENÇA, Graça. História da Arte. 16. ed. 8. imp. São Paulo: Ática, 2002. 280 p. ISBN 8508032447
ROMANTISMO nas artes visuais. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termos/80010-romantismo-nas-artes-visuais. Acesso em: 17 de julho de 2026. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7